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A Escrita com Sistema de Representação
Hoje se sabe da importância da alfabetização ainda nas séries iniciais mas que tradicionalmente é considerada relacionando-se o método utilizado e o estado de maturidade da criança.
Emília Ferreiro chama à atenção para o fato de que somente são considerados no processo de aprendizagem os sujeitos, quem ensina e quem aprende, mas não a natureza do objeto de conhecimento envolvido nesse processo. A autora demonstra como este objeto de conhecimento também intervém no processo.
O texto a seguir é um resumo de parte do primeiro capítulo de seu livro Reflexões Sobre Alfabetização.
A Escrita com Sistema de Representação
A escrita pode ser concebida de duas diferentes formas: como uma representação da linguagem ou como um código de transcrição gráfica das unidades sonoras. A diferença é que na codificação os elementos e as relações já estão predeterminados, como por exemplo, o código Morse onde todas as configurações gráficas que caracterizam as letras se convertem em sequências de pontos e traços, mas cada letra do primeiro sistema corresponde uma configuração diferente de pontos e traços, em correspondência biunívoca. Ao contrário, numa representação nem os elementos nem as relações estão predeterminados e costuma ser um longo processo histórico,até se obter uma forma final.
A invenção da escrita deve ser entendida como um processo histórico de construção de um sistema de representação, não um processo de codificação. No caso dos dois sistemas envolvidos no início da escolarização as crianças enfrentam dificuldades semelhantes às da construção do sistema e por isso que em ambos os casos, a criança reinventa esses sistemas. Para que os números e letras sirvam de elementos desse sistema, as crianças devem compreender seu processo de construção e suas regras de produção para que possam entender qual é a natureza da relação entre o real e a sua representação.
No caso da linguagem escrita, a natureza complexa do signo lingüístico torna difícil a escolha dos parâmetros privilegiados na representação.
As escritas do tipo alfabético poderiam ser caracterizadas como sistemas de representação que tem por objetivo representar as diferenças entre os significantes. Já as escritas do tipo ideográfico poderiam ser caracterizadas como sistemas de representação cuja intenção primordial é representar diferenças no significados.
Se a escrita é concebida como um código de transcrição, sua aprendizagem é concebida como a aquisição de uma técnica, mas se a escrita é concebida como um sistema de representação, sua aprendizagem se converte na apropriação de um novo objeto de conhecimento, ou seja, em uma aprendizagem conceitual.
FERREIRO, Emília. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez, 2010.